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Tudo Velho: É… Vinte anos de Blitz… Como o tempo passa!

Sim, a modernidade, em termos de rock brasileiro, está fazendo vinte anos. E pouca gente lembrou disso. Evandro Mesquita esteve numa novela na Globo, passou quase todo o ano de 2002 na telinha da TV e mesmo assim pouca gente lembrou que em 1982, vinte anos atrás, saía o primeiro compacto da Blitz, “Você não soube me amar”. Na verdade, a coisa começou um pouco antes, quando o clipe da música apareceu no Fantástico. Sem nenhum exagero, dá pra dizer que os anos 80 começaram aí. Em vez da riponguice assumida que vinha dos anos 70, a juventude começava a ser jogada em cima da febre new wave, que tinha vindo da Europa e chegava atrasada no Brasil. Em vez da seriedade da MPB e da cara amarrada do rock bronco, durão e pesado (e do virtuosismo do prog), havia o som alegre, adolescente (e infantil às vezes) e as letras descontraídas da Blitz. Colando imagens da mídia (o “mas rrrrealmente”, do Chacrinha), de histórias em quadrinhos (contando uma história de ação e de raciocínio rápido, cheia de “blá-blá-blás” e “ti-ti-tis”) e do papo de rua, Evandro & cia. conseguiram criar o novo e dar o start na nova década no Brasil.


A EMI resolveu valorizar isso reeditando os três discos da Blitz, finalmente, em edições separadas. O primeiro disco da banda, o clássico As aventuras da Blitz, já havia saído em CD faz tempo, mas nem ficou muito tempo em catálogo – depois os três discos saíram numa caixinha da série Portfolio (que relançava discos originais da gravadora em miniaturas das capas originais), com tiragem de mil e poucas cópias, no estilo “quem comprou comprou, quem não comprou…”. É estranho que a Blitz tenha feito tanto sucesso e todas as tentativas de reeditá-la tanham passado despercebidas. Em 1995 chegou a sair um disco ao vivo – com outra vocalista no lugar de Fernanda Abreu – e, mesmo com o sucesso dos shows (que reuniam milhares de pessoas), o disco não funcionou no sentido de reativar a carreira do grupo. Os dois discos que se seguiram (os independentes Línguas e Últimas Notícias) também não deram lá muito certo. A Blitz se tornou aquela banda que a gente ouvia quando era criança e que foi parar no quartinho de guardados (literalmente: pode procurar nos quartos dos fundos de várias casas que você vai acabar esbarrando com algum disco antigo da banda). Injusto, mas eram coisas do início do mercado pop brazuca, que botou a Blitz nas cabeças com mais de cem mil cópias vendidas do single-de-um-lado-só (“Você não soube me amar”) e transformou As aventuras… no disco mais esperado de 1982. Foi o presente de Natal de muita gente naquela época.


As aventuras…, gravado ainda com Lobão na bateria (o cantor não aparece na foto da capa), trazia um som que misturava HQs, TV, teatro – via Asdrúbal Trouxe o Trombone – e gozação, ao som de R&B, blues, funk e rock anos 50. Musicalmente, não era nada de muito inovador em termos de rock mundial, mas a Blitz tinha um carisma absurdo, e, no Brasil, era uma coisa absolutamente moderna. No ano em que Elis Regina morria, a Blitz vinha com um disco gravado por aquele selo amarelão da EMI – geralmente dedicado às obras de MPB – e com uma qualidade de gravação até hoje surpreendentemente pesada (a remasterização da série Portfolio ainda dignificou isso). Isso pode ser comprovado nos funks-protótipos “Blitz cabeluda” e “Vai vai love”, que abrem o disco. Músicas como “De manhã (Aventuras submarinas)” e “O romance da universitária otária” iniciavam um tipo de linguagem que só encontraria paralelo em publicações como Casseta Popular e Planeta Diário (até o visual do disco lembra o dos primeiros números do Planeta).


Além dos hits “Você não soube me amar”, “Volta ao mundo” e “Geme-Geme”, o disco ainda tinha uma série de músicas que passaram despercebidas, como “O beijo da mulher aranha”, “Vítima do amor” e a gozadora “Totalmente em prantos”. “Eu só ando a mil”, com um humor hoje em dia meio datado, era de rolar de rir em 1982 – mas nem por isso é menos legal. Fechando o disco, as famosas duas músicas riscadas, “Ela quer morar comigo na lua” e “Cruel, cruel, esquizofrenético blues”, completamente inofensivas se comparadas a um disco inteiro dos Raimundos (traziam palavrões e palavras ambíguas, só isso). Mas ao que consta, a atitude da censura foi tão radical que a gravadora decidiu nem prensar o disco de novo: riscou as músicas e fez muito guri estragar a agulha do aparelho de som dos pais, tentando escutar as músicas.


O grande problema da Blitz foi se melar de vez no pop – algo que já havia, ao que consta, sido pressentido por Lobão, que chegou a afirmar que a Blitz tinha uma proposta bem mais anti-comercial no início e foi pervertida pela gravadora. Radioatividade, de 1983, tinha um som que pegava os aspectos comerciais do primeiro disco e os elevava à última potência. Fez um baita sucesso e acabou tendo até mais hits, como “Weekend”, “Ridícula”, “A dois passos do paraíso”, “Betty Frígida”, etc. Talvez o grande erro da banda tenha sido mexer no baú do rock dos anos 50 – uma coisa que quase nunca deu certo no Brasil, assim como mexer com a Jovem Guarda – gravando “Biquíni de bolinha amarelinha”. O que parecia apenas adolescente no disco anterior ficou bem mais infantil – tanto que não foi exatamente um estranhamento quando a banda apareceu na chegada de Papai Noel no Maracanãzinho e teve até álbum de figurinhas lançado…


Blitz 3, o terceiro disco, foi o começo do canto do cisne. Apesar de não ser exatamente um disco ruim, era morno, caído, cheio de idéias que não davam tão certo quando as dos dois primeiros discos. Com três capas de cores diferentes – aparentemente a amarela é que a foi relançada dessa vez – o LP teve um sucesso pervertido (“Egotrip”, envolvida em boatos de plágio de “Eu me amo”, do Ultraje, lançada na mesma época) e apenas mais duas músicas executadas em rádio: a dançante “Dali de Salvador” e a engraçadinha “Eugênio” (“Cresci, mamãe cresci” chegou a tocar um pouco também). Mas já mostrava que alguma coisa tinha se quebrado de vez. O grupo ainda se apresentaria num show fenomenal no Canecão e no Rock In Rio (travados por causa da baixa qualidade de som) e conseguiria protelar o término da banda até 1986. No final de 1985, Evandro ainda daria uma entrevista ao Jornal do Brasil com cara de fim de grupo, afirmando que a Blitz deu um tempo “para fugir dessa praia poluída por conjuntos de rock” (opa!) e anunciando um compacto da banda para o ano seguinte. A última gravação do grupo foi a chata “Malandro agulha”, da trilha da novela global Selva de pedra, remake de 1986. E fim.


A Blitz foi talvez o único fenômeno pop brasileiro que não deixou seguidores ou imitadores – todos tiveram os seus, desde Secos & Molhados a Charlie Brown Jr., pasando por Mamonas e Raimundos. Evandro, após o fim da banda, tentou levar adiante uma bisonha carreira solo (que gerou pelo menos um disco bom, o primeiro), que acabou levando o cantor para o caminho das novelas e, novamente, do teatro. Como solista, só Fernanda Abreu conseguiu brilhar, ainda que gravando discos meio irregulares. Talvez agora, com o relançamento dos discos, a banda consiga ter respeito não só como fenômeno pop ou saudosista, mas como uma boa banda, que gravou pelo menos dois discos relevantes – e que, pelo que parece, terminou na hora certa, sem deixar momentos ruins.

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