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Independência é como gilete

Talvez o Brasil nunca tenha sido independente mesmo. Desde quando esta terra se tornou residência de várias raças, nós fomos passando de mão em mão, como uma meretriz. Porém, em vez de cobrarmos, preferíamos pagar o preço. Consolidamos, entre outras, a dependência na música. No entanto, em se tratando de acordes musicais, há outras dependências àquela amaldiçoada pela maioria absoluta dos professores de história, existem imposições para que a nossa música não saia do lavabo mpbista, não fuja dos parâmetros pseudonacionalistas da bossa nova e afins.


A liberdade a fim de seguir outros ritmos diferentes dos ditos nacionais sofreu e ainda sofre restrições puritanas. Estas, pregando a independência, arremessam a fôrma dignificadora da “boa música brasileira”. Todo o excesso que transborda do molde é lixo e tudo a menos também o é. Vários são os exemplos de querer uniformizar nossas notas musicais. Gilberto Gil e Elis Regina já lutaram juntos contra o uso da guitarra elétrica na tal “Música Popular Brasileira”. Ainda, para ficar no termo MPB, basta ver o que é considerado MPB, impropriamente. A sigla vem sendo usada apenas como correspondente a uma parcela do cancioneiro brasileiro, nem tão popular como gostaria, ou melhor, como não gostaria.

Não faz muito tempo, Tom Zé satirizava o finado Raul Seixas num show, porque o ex-parceiro de Paulo Coelho tocou, durante a vida, rock and roll. “Vá tocar baião, Raul! Vá tocar baião!”, Zé aconselhando Raulzito. O rock seria um ritmo invasor, contra a soberania verde-amarela.


Bandas brasileiras de rock cantando em inglês, então, serão sumariamente achincalhadas. Até os paranaenses do Grenade, grupo de folk psicodélico e o que há de melhor no cenário atual da MPB (!!!), têm dificuldades em receber elogios da massa falida, no caso, considerável porção do público roqueiro. Ao ouvir as canções desses sulistas, um metaleiro se desanimou pois o vocalista cantava em inglês. Sendo indagado sobre o Sepultura, heavy metal pau-brasil cantado na língua dos norte-americanos, o mesmo rapaz afinou pela via constrangedora do “é diferente…”. Compreende-se, só existe uma salvação aos “americanizados”, para conseguirem o perdão dos ufanistas daqui: paradoxalmente, deve-se fazer sucesso lá fora para se ganhar notoriedade aqui dentro das quatro linhas. Já insinuado o futebol, não esqueçamos que é este um esporte bretão, ou seja, relativo à Grã-Bretanha ou à Inglaterra. Apesar disso, quem hoje é capaz de desmerecer essa paixão nacional tupiniquim criada pelos anglo-saxões?


Se “música” é o que não é poema, se “popular” é o que não é erudito e se “brasileira” é o que não é feito fora deste país, então toda música popular feita no Brasil é pleonasticamente brasileira. No quesito música, independência é como gilete, há duas opções de independência: a total, referida à liberdade de estilo, ou a parcial, no sentido de estancar a inevitável relação com os “imperialistas”.


:: Adriano Claret Albertos, 23, assina a coluna ForFã no MusicaNews e deseja à todos um feliz dia 7 de setembro!

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